Quando a Dor Não Encontra Espaço
Eu escuto as pessoas. Escuto de verdade.
Sustento silêncios, abraço fragilidades, respeito pausas, tentando compreender o que existe por trás das palavras ditas e, principalmente, das não ditas.
Mas quando sou eu quem fala, percebo que muitas pessoas até escutam, porém não acolhem.
Minha dor não permanece. Ela é atravessada, interrompida, desviada. Em poucos segundos, o foco muda. O assunto passa a ser o outro. Aquilo que ele viveu, que foi mais difícil, mais pesado, mais doloroso do que o que eu estava tentando compartilhar. Surge, então, uma espécie de competição silenciosa: quem sofre mais. E, por dentro, dá vontade de dizer: ok, você já venceu .
Não sei ao certo se isso é vitimismo, egocentrismo ou apenas um mecanismo inconsciente de defesa. Talvez seja difícil lidar com a dor alheia. Talvez tenha medo de entrar em contato com emoções que não sabem sustentar. Talvez a urgência de provar o que também o faz, como se a validação do outro dependesse de sobrepor a própria dor.
O fato é que, nesses momentos, essas pessoas se mostram incapazes de ouvir de verdade, de acolher, de perceber que não se trata delas, mas de quem está, com cuidado e vulnerabilidade, tentando compartilhar algo íntimo.
O que sei é que, na maioria das vezes, isso acontece sem intenção. As pessoas não percebem o que fazem. E, muitas vezes, não fazem por maldade. Ainda assim, o efeito permanece.
Quem compartilha buscando amparo sai com a sensação de que pediu demais.
E quem recebe de acolhimento aprende, em silêncio, a se calar.
Talvez um dos grandes aprendizados seja este: não podemos exigir do outro aquilo que ele não tem para oferecer. Nem todos sabem sustentar a dor alheia. Nem todos permanecem quando o centro não é eles.
E, curiosamente, ao ouvir tanto, percebo também que problemas que outrora me pareciam enormes vão se tornar menores diante das histórias que chegam até mim, não porque minha dor não existe, mas porque ela ocupa outro lugar dentro de mim.
Ainda assim, sigo acreditando no valor da escuta verdadeira. Porque ser ouvido sem ser interrompido, sem ser comparado, sem ser desviado, também é uma forma profunda de cuidado.
Soraia F. Navarro


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